segunda-feira, 25 de maio de 2009

Gastar muito é uma doença

Comprar compulsivamente é sinal de doença.Estourar o orçamento repetidamente é um vício igual ao alcoolismo. A doença tem até nome: oniomania, aquele que necessita comprar assim o dependente químico necessita da droga. O desejo incontrolável de gastar tem tratamento: inclui acompanhamento psicológico e medicação. Mas é fundamental que a pessoa reconheça que está doente e precisa de ajuda.
Além de cortar todas as formas de crédito, como cheques e cartões de crédito, o ideal é que alguém da família ou um amigo próximo assuma o controle das finanças do paciente. Embora não exista dados estatísticos sobre a doença no Brasil, ela tem crescido bastante. Já existe até um grupo de auto-ajuda chamado Devedores Anônimos, que segue a mesma linha de atuação do Alcoólatras Anônimos.
Assim como todo dependente, os consumidores compulsivos demoram a admitir seu vício. No caso deles é particularmente difícil porque fazer compras é uma atitude bem vista e até incentivada pela sociedade. A causa do consumo compulsivo é uma conjunção de fatores biológicos e psicológicos. Ao mesmo tempo, com as compras, a pessoa tenta preencher "o buraco" provocado por problemas do dia-a-dia.


Gastar demais pode ser sinal de doença
Até o início do ano passado, toda vez que Maria José, 60, ia a uma consulta médica, carregava consigo uma série de pacotinhos. Eram presentes para médicos, enfermeiras e recepcionistas.
Outro hábito dela era reunir sobrinhos e amigos do filho e os levar a lanchonetes e parques de diversão. Cada um pagava a sua parte? De jeito nenhum. Maria José fazia questão que as despesas ficassem por sua conta.
De presente em presente, ela gastava mais do que ganhava. Funcionária da área de recursos humanos e formada em pedagogia e direito, Maria José chegou a perder um apartamento por causa do desejo incontrolável de gastar. Quando as prestações do imóvel venciam, o dinheiro já havia ido embora.
"O único bem que me restou foi um outro apartamento, que só consegui terminar de pagar porque o valor das prestações era descontado do meu salário", diz.
Maria José afirma que sempre teve o mesmo comportamento. "Por anos a fio participei de uma ciranda de empréstimos com bancos, administradoras de cartão de crédito, financeiras e parentes para rolar as dívidas."
No início do ano passado, já aposentada e com uma renda menor, as instituições financeiras fecharam as portas para ela. Seu nome entrou no cadastro de devedores da Serasa (Centralização de Serviços Bancários). Na época, seus débitos somavam mais de R$ 30 mil. "Foi quando cheguei ao fundo do poço", diz.
O vendedor Carlos Alberto, 41, também não resistia a agradar à família. "Se eu acompanhava o meu tio ao supermercado, fazia questão de pagar as suas compras, mesmo sabendo que ele ganhava três vezes mais do que eu", diz.
Carlos Alberto conta que o fato de ter dinheiro no banco o incomodava. Era preciso gastá-lo. "Não conseguia deixá-lo na conta. Sou alcoólatra, faço tratamento há sete anos. Na época, tentava compensar a dívida emocional que tinha com a minha família com presentes que fugiam do meu real poder aquisitivo", diz ele, que por pouco não perdeu a casa onde mora.
Os nomes dos entrevistados acima são fictícios. Eles pediram à reportagem da Folha que suas identidades fossem omitidas. Essas pessoas integram o grupo de auto-ajuda Devedores Anônimos, que segue a mesma linha de atuação do Alcoólatras Anônimos. São consumidores compulsivos, pessoas capazes de ir à bancarrota devido a gastos desenfreados.
"Essas pessoas são doentes. Elas têm o consumo como vício, da mesma forma que um dependente químico necessita da droga ou um alcoólatra, da bebida", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo).
Segundo a psicóloga Denise Gimenez Ramos, coordenadora da pós-graduação em psicologia clínica da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), para essas pessoas, o prazer da compra também é fugaz. "Logo depois elas entram em um estado de depressão que, dependendo do caso, pode evoluir para um quadro de tendência suicida."
Assim como todo dependente, os consumidores compulsivos demoram a admitir seu vício. Porém, no caso deles, é particularmente difícil, uma vez que fazer compras é uma atitude bem vista e até incentivada pela sociedade.
No Brasil, não há estatísticas sobre o assunto. Nos EUA, estudos mostram que 1% da população sofre de consumo compulsivo, cientificamente chamado de oniomania. No Reino Unido, as pesquisas indicam que esse percentual é de 3% entre os adultos e 8% entre os adolescentes.
A causa do consumo compulsivo, segundo o psiquiatra Silveira, é uma conjunção de fatores biológicos e psicológicos. "A pessoa apresenta deficiência do neurotransmissor serotonina no organismo", diz. A substância regula, entre outras funções, o humor e a libido no organismo humano.
Ao mesmo tempo, com as compras, a pessoa tenta preencher "o buraco" provocado por problemas do dia-a-dia. "Conheço mais de um paciente que, ao brigar com a mulher, em vez de enfrentar o problema, se posta diante da Internet para fazer uma série de aplicações irracionais em Bolsa", afirma o psiquiatra.
O tratamento, explica, inclui acompanhamento psicológico e medicação. Mas é fundamental que a pessoa reconheça que está doente e precisa de ajuda. No início, além de cortar todas as formas de crédito, como cheques e cartões de crédito, o ideal é que alguém da família ou um amigo próximo assuma o controle das finanças do paciente. "Ele só deve ter em mãos o dinheiro necessário para o dia", diz.
Paralelamente, diz a psicóloga Denise Ramos, a pessoa deve tentar identificar as situações que desencadeiam o consumo compulsivo. "É uma hora difícil, porque nesse momento ela acredita que somente as compras podem lhe proporcionar bem estar."


Quem tem dívida deve cortar cheque e cartão

O auditor fiscal Emerson Roberto Baldissera, 27, está passando por um processo de reeducação financeira. Em agosto, cancelou os três cartões de crédito que possuía. A dívida dos cartões, somada à do cheque especial, passou de R$ 3.000 para quase R$ 7.000 no último ano.
Além de ter sido obrigado a mudar de cidade quatro vezes nos últimos três anos, devido ao trabalho, o que causou grandes despesas, ele afirma que, até pouco tempo atrás, gastava muito em lazer. "Por final de semana, cerca de R$ 200 iam embora", diz. No mês, esses gastos, somados, eqüivaliam a 60% do seu salário líquido.
Baldissera também costumava comprar CDs compulsivamente. Eram cerca de 20 por mês. Mas esse hábito ele foi obrigado a abandonar. "Parei de comprá-los quando, há alguns meses, tive de vender meu aparelho de som para pagar parte das dívidas."
Em julho, ele renegociou com os credores todos os seus débitos. "Com os acordos, consegui reduzir os juros cobrados, além de parcelar os pagamentos", diz. No mês passado, afirma que quase não saiu de casa para evitar a tentação de gastar.
O presidente da Andif (Associação Nacional de Defesa dos Consumidores do Sistema Financeiro), Aparecido Donizete Piton, concorda que cortar as fontes de crédito como cheque especial e cartões, como fez Baldissera, é fundamental para quem já está endividado. Ele diz ainda que outra alternativa é brigar na Justiça contra juros abusivos.
A jornalista Flávia Adalgiza, que com base em sua experiência pessoal escreveu o livro "O Devedor - A Luta para Vencer a Guerra das Dívidas", recomenda que a pessoa tome a iniciativa de procurar os credores para renegociar os débitos. "É importante mostrar disposição para pagar", diz.
Flávia montou uma produtora de vídeo no interior de São Paulo no início dos anos 90. "O projeto era megalomaníaco. A cidade não comportava um investimento daquele porte", diz. Por causa disso e de problemas administrativos, quando ela se deu conta, já possuía uma dívida superior a R$ 300 mil.
"É difícil. Nessas horas, a família se afasta, os amigos te isolam, parece que você é um leproso. O devedor sente muita vergonha", diz.
De acordo com ela, é fundamental que o devedor tenha coragem de parar para fazer a conta de tudo o que deve e para quem. "Chamo esse momento de "pânico um"." O "pânico dois", segundo ela, é quando se toma consciência do tamanho do rombo.
O devedor, diz, tem então três alternativas: fugir, morrer ou vencer. "Geralmente dá para cortar uma série de gastos, de alimentação a vestuário, sem perder a dignidade."
Flávia afirma que, mesmo que a economia seja pequena, ela nunca é desprezível.Os devedores devem tomar cuidado para não ampliarem a dívida envolvendo outros membros da família, sem antes ao menos tentar rever seu planejamento orçamentário.
O presidente da Andif diz, por exemplo, que tem crescido o número de mulheres inadimplentes. "Mas, em 99% desses casos, há um homem por trás." Segundo ele, é comum que o chefe de família, ao ter seu nome incluído na lista negra do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) ou da Serasa (Centralização de Serviços Bancários), passe a fazer as compras com o nome da mulher. Dessa forma, os dois acabam impedidos de comprar a prazo.


Controle começa na infância

A educadora financeira Cássia D'Aquino é categórica: usar o dinheiro de forma controlada é algo que pode - e deve- ser aprendido desde criança. "É preciso saber lidar com a espera. Afinal, como diz o ditado, o melhor da festa é esperar por ela", diz.
A incapacidade de esperar é uma forte característica dos compradores compulsivos. E ela pode se manifestar de diversas formas, não precisa ser apenas pelo ato de gastar compulsivamente.
Uma das participantes do grupo Devedores Anônimos, apesar de não gastar desenfreadamente, vive com pânico de dívidas. Filha de um gastador contumaz e de uma mãe que tentava controlar o pai, diz acreditar que a sua dificuldade em lidar com dinheiro é fruto da experiência familiar.
Na educação financeira, segundo Cássia, os pais têm papel fundamental. "Presentear demais a criança não traz felicidade, só a deixa ansiosa." Ela sugere que os pais estabeleçam datas para presentear os filhos. "Assim a criança passa a entender que deve esperar para obter o que quer."
Cássia explica que, entre os seis e dez anos de idade, a criança não possui maturidade para lidar com prazos longos, por isso "o ideal é dar o dinheiro semanalmente".
A partir dos 11 anos, de modo geral, a criança já possui habilidade para absorver prazos maiores. "Mas não adianta simplesmente dar o dinheiro sem oferecer nenhuma orientação", diz.
Segundo Cássia, os pais devem sentar com os filhos para, juntos, calcularem quanto da mesada deve ser separado para os gastos fixos, como condução e o lanche na escola. Assim, a criança passará a entender que apenas uma parcela da mesada poderá ser gasta para saciar seus desejos. Além disso, ficará claro que eles devem ter limites e respeitar o orçamento de determinado período.

Solidariedade combate o vício

Na última quinta-feira à noite, véspera de feriado, no horário marcado para a reunião do grupo de Devedores Anônimos, na Igreja Nossa Senhora Perpétua do Socorro, só havia chegado uma pessoa. Mas, pouco a pouco, depois de desafiarem o congestionamento que imobilizava a cidade de São Paulo, os participantes do grupo foram chegando. Naquele dia, foram oito. Geralmente são cerca de 15. "É que tem devedor aqui que está com dinheiro para viajar", brinca uma das integrantes.
Depois de lerem trechos de textos que falam sobre o que é endividamento compulsivo, cada um começa a falar sobre si. Não há perguntas. Cada participante usa aquele momento para fazer um misto de desabafo e reflexão sobre como está se saindo no processo de abstinência.
Comentam, também, sobre a dificuldade de aprender a viver sem dívidas. Uma situação que para eles é completamente nova e, por isso mesmo, assustadora.A solidariedade ajuda a evitar recaídas. Quando sentem que uma crise está por vir, eles têm o hábito de ligar para algum amigo do grupo. Dividindo a agonia, geralmente conseguem resistir à compulsão.
Os pequenos passos são comemorados. Inclusive o fato de, sem culpa, ficar devendo R$ 10 para o dono da banca de jornal porque ele não tinha troco. "Estava ficando ansiosa com isso, mas consegui ver que eu não fiz essa dívida porque quis. Depois, então, separei o dinheiro para dar a ele", conta uma "D.A.", como se definem os participantes do grupo.
Ao fim da reunião, eles fazem uma oração pedindo serenidade para continuar na luta do não-endividamento. E desejam "24 horas para todos", em referência ao fato de que a batalha pela abstinência não acaba, mas tem de ser vencida diariamente.

LOCAIS DAS REUNIÕES
Igreja Nossa Senhora Perpétua do Socorro - Rua Sampaio Vidal, 1.055 -Quintas-feiras, às 18h30
Igreja Santa Efigênia - Rua Santa Efigênia, 30 - Sábados, às 16h
Paróquia São Luís Maria de Mont Fort - Rua Doutor Carmelo D'Agostinho, 149 - Domingos, às 15h

Fonte: Folha de S. Paulo / Aprendiz

Um comentário:

  1. Olá, Ana Paula,

    Obrigada pela gentileza de postar minhas ideias no blog.

    Vida longa, plena de sucesso, ao Dicas na Mão!

    Um grande abraço,


    Cássia D'Aquino Filocre
    Especialista em Educação Financeira
    Corresponding Member da IACSEE-International Association for Citizenship, Social and Economics Education
    www.educacaofinanceira.com.br
    cassiadaquino@educacaofinanceira.com.br

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